Para ele, nos anos 60, amor, guerra, esportes , arte e tudo mais que era visto sob o víes da política. Fazer amor ou fazer guerra, era um opção política, ganhar de determinado país na olimpíada, era uma vitória política, a arte, deveria ser uma arte de vanguarda, política. A política dos presidentes e ministros, era vista como uma marionete do poder, uma falsa política de cartas marcadas. Enquanto todo o resto da vida social passava por essa mesma "peneira".
Usando a Copa de 70 no México, o professor da Universidade 10 de Paris, lembrou que muitos intelectuais de esquerda torciam contra a vitória do Brasil, pois a felicidade faria o povo "esquecer" da Ditadura. Mas segundo ele o esquecimento "era do poder, e não da comunidade". No seu entendimento, a política é formada por dois elementos constituivos: a comunidade e o poder. Pois o ser humano vive necessariamente em comunidades políticas e precisa do poder para nelas se adequar. Ao mesmo tempo que é incapaz de viver só, o homem també é demonstra dificuldades para fazê-lo em comunidade. Vem daí as duas utopias: uma comunidade sem poder (anarquia) e um poder sem comunidade (estado nacional).
Assim, na Copa de 70 apenas o poder político foi esquecido. A política da comunidade, e todos os laços territoriais, de identidade, nacionais, tradicionais, históricos, que conectavam politicamente o time da seleção brasileira a nação brasileira foram evidentemente fortalecidos. É claro, que com apenas política de futebol não se vive em uma democracia.
Não apenas a arte e o esporte eram políticos para Wolff, também a moral o era. Assim, a moral da família podia ser vista como um valor político a ser reforçado pela direita ou uma bandeira política a ser exterminada pela esquerda. Ainda sobre a moral e a esquerda, o palestrante lembrou que havia divergência sobre, por exemplo, a moral das relações amorosas. Se a vanguarda da liberdade sexual fosse considerada exagerademente promíscua e burguesa e moral proletária, mais acomodada, poderia ser a opção política mais correta. Enfim, os valores morais também passavam pela peneira da política.
Já hoje, vemos a moralização da política. No âmbito internacional, Wolff descata as ações humanitárias. A luta não é mais para acabar com a opressão, mas sim ajudar moralmente suas vítimas. Em outra ponta, o terrorismo, politicamente vago e moralmente indestrutível. No esporte, mais importa se o vencedor usou ou não produtos ilícitos para ganhar a prova do que se ele representa o capitalismo ou o socialismo. "O que ocorreu de trinta anos para cá? Fim do messianismo revolucionário, progresso da <<>>, no sentido de governo <
É nesse sono que Wolff vê o esquecimento da política, na verdade da política democrática, e identifica cinco sintomas.
O esquecimento da comunidade [política] é sentido pelo alargamento do "território do eu". Este possui duas formas, o individualismo e o comunitarismo. Se no individualismo o indivíduo se exclui da vida pública, no comunitarismo essa exclusão é feita por uma esfera um pouco maior, mas ainda sim privada, por exemplo os guetos. Se tudo já está no indivíduo, na pessoa, então a construção coletiva torna-se desnecessária.
Há também o "aquém da comunidade" com a possibilidade de se excluir da vida pública através do reino de Deus. Intermediando seu destino com o divino, com a solução real dos problemas no céu, o cidadão pode confortavelmente se distanciar da vida política e cuidar de seu entorno privado.
O poder, também é esquecido de duas maneiras. Através do tecnicismo e do economismo. Aí, os especialistas, sobresaem como os donos da razão. Pois seus argumentos têm a autoridade baseada em sua especialização e não no valor de suas opiniões. Wolff aponta dois perigos: a tecnocracia (esquecimento dos valores políticos) e <
Quanto a moral, o filósofo sintetiza : a política visa produzir o bem coletivo, a moral a evitar o mal. Se a moral dos governantes se sobrepõem ao projeto político, substituímos a afirmação do bem coletivo pela negação do mal. Aliado a concepção de que tudo é vida privada e o pouco de político que sobrou está em via de substituição pela técnica e pela ecônomia o quadro desenhado por Francis Wollf não parece muito promissor. Talvez seja por isso que trocou o nome da palestra. De "Esquecimentos da política ou desejos de outras políticas?" para "Fim do sonho, início do sono". Não há respostas para quê outra política resulta dessas mudanças.
Mas há "remédios" feitos de lições básicas. Temos que aceitar o fato que nós somos os governantes, e não apenas consultores em pleitos periódicos. Não devemos opor os vícios dos políticos aos das pessoas comuns, pois são tão gente como a gente. Para ilustrar sua visão de esquecimento, Wolff usa a metáfora do Anel de Gyges, descrito no início de "Política" do Platão.
Gyges era o mais honesto dos homens, até achar um anel que o torna invisível. Primeiro ele rouba apenas um pão. Suas atrocidades vão aumentando, passam pelo estupro, chegam no assassinato do Rei e na posse do poder. E você o que faria em posse do anel? Sob a certeza da impunidade, da invisibilidade, o que faria? Nenhuma pessoa o julgaria, nem moral, nem politicamente. Nesse exercício de alteridade, voltamos a moral para nós mesmos, e nos permitimos florescer a política.