Atravessou o olhar na multidão e encontrou a cara-metade. Era carnaval.
Escreveu a mensagem de longe, do bloco só se ouvia o eco dos tambores. Cansaço era sua fantasia estampada, mas o amor lhe pegara há 4 anos. Hoje era o dia de vestir a máscara da coragem e fazer o peito pular sem saber se é maravilha ou sofrimento. Apagou escreveu apagou escreveu eu te amo, eu te am, eu te, e mandou assim mesmo, eu te amo. Taparam-lhe os olhos e não pôde ver a confirmação do envio. Ficou satisfeito: vencera a covardia. Ainda só vendo pele e sentindo o cheiro da serpentina notou os lábios no pescoço e as mãos escorregaram do olhar e pararam sobre os ombros. Era ela. Era carnaval.
Trabalha no telemarketing há cinco anos. Nesse carnaval queria demissão. Falou palavrão em dezembro, destratou clientes em janeiro mas em fevereiro foi promovida. Entre um atendimento e outro, o corpo suava e o pé ventava embaixo da mesa. Queria estar na Rio Branco, fantasiada de índia e provocando ereções em quem a visse. Terminou o expediente, ligou para o namorado, disse se prepara, mas no elevador encontrou o faxineiro que morava ainda mais longe do asfalto. Agarrou-lhe da coxa acima, apertou o pare e sussurou: hoje é carnaval.
Viúva há 10, abandonada pelos filhos há 5, com pensão prejudicada há 2, ouvia rádio enquanto o corpo esperava morrer. Sentiu um vento na nuca, levantou-se e entrou no enquadramento da janela. Olhou para baixo e viu-se mais jovem, ainda assim era ela. O mesmo cabelo, o mesmo namorado, a mesma fantasia. O sorriso veio subindo-lhe as paredes do estômago e parou constrangido nas rugas da face. Primeiro foi a água do gato. Depois a da geladeira. Euforica tirou a mangueira, encheu os baldes, trocou a estação, e não passou folião sob sua janela que não tivesse chance de refresco. Era ela meio morta regando sua ela viva para sempre. Era carnaval.
Saiu suando do Bola Preta. Só usava bermuda e nem cueca vestia. Perdeu-se há muito. Abandonara a multidão na Vargas, era bloco de si mesmo - quem não chora não mama - e já chegava no São Bento sentada no patamar perto do colégio onde estudara ela não tinha 15 anos. Fitou-lhe nos olhos: sou menina mulher. Ele agarrou seu braço com firmeza e a fez ficar em pé. Ela pulou no seu pescoço abriu a porta e puxou-lhe. Daí para frente só as bonecas de porcelana viram a cena. Ele entrou nela de quatro - quem não chora não mama - fez-a rezar - dá a chupeta- e só pararam de fazer amor quando ele já pulava de volta na Vargas e ela ainda demorava-se exausta na cama.
Entrou em casa às seis. Na sala todos os sofás descansavam foliões. Na escada um casal namorava. Dois quartos estavam com as portas fechadas. No seu, um casal dormia pelado com as luzes acessas e um desconhecido desmaiava no chão. Sem ter onde cair morto tirou o ipod da gaveta catou as moedas pela casa e saiu sem saber se a porta fechara. A la la o o o o o mais que calor ooooo.
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
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