Saiu da missa das seis. Andou pela Rua Portinari até a loja de sorvetes. Dos trabalhos com a juventude católica, aprendera a valorizar a santidade do corpo, apesar de não serem essas as palavras do padre, entendia que tanto pecado ligado ao uso do corpo, especialmente ao seu de mulher, indicariam que o corpo talvez fosse mais importante que a consciência; afinal, a consciência Deus perdoava através da Sacrossanta palavra do padre, mas a virgindade, essa é como o tempo: não tem volta.
"Minha filha, por ele eu faço o que for. Ele é um Deus na cama, Santo Pecado", ouviu o sussurro na fila da sorveteria. As palavras flutuaram em seu pensamento como se fossem suas, como se o tal ele, existisse, como se soubesse o que cama era. A imagem mais santa e poderosa que surgiu foi justamente a do Padre Alois. Longe de ser belo, bom assim que não acionava as travas do desejo, Alois tinha uma postura quase imortal, um peso de livro duro e sólido sob as mãos. Por anos, sua palavra a confortava como o peito de um homem conforta a face de uma mulher.
A relação nunca antes existente entre o caminho espiritual, completamente iluminado por Alois, e a consciência visceral de seus hormônios se estabelecia de uma maneira deliciosa. Um pecado mudo escondido em polidas lambidas de sorvete. Já os lábios não se cerravam impunemente, havia neles desejo. As pernas, as coxas, se enconstavam como um delicioso castigo, como uma Ave-Maria uníssona e repetitiva, purificadora no ciclo vicioso dos pecados. Já começava a sentir, com a leveza espiritual das virgens, que poderia ter sua carne castigada se depois pudesse descansar sob o peito rígido como livro de um homem qualquer. Tantos pensamentos, e a culpa continuava adormecida como no pensar inocente.
Devagar notou que essa pequena tensão entre seu sexo e a figura patriarcal do padre era facilmente perceptível em outras, bastava que se sentisse o mesmo e que nenhuma ousasse desferir o véu da outra. Uma multidão de pecados silenciosos vivia sob o grande viaduto da salvação. Nas noites de sábado, destribuía sopas para que os famintos descansassem a fome no dia que Deus descansou do mundo. Poucas eram as vezes em que o estudioso Padre Alois participava desse nobre ritual de solidariedade. Era então quando ela estendia sobre ele toda a sua fragilidade, permitindo-lhe que se aquecesse estendendo-o a mão. Caminharam nas noites de sábado, a batina e a saia, o livro sagrado e o pecado inocente.
Alois sabia viver com esse tipo de tensão, perdoava esses pequenos desejos erguendo sua torre de livros. Dedicando-se ao estudo do sagrado doutrinava-se no caminho espiritual da salvação, a luz única do Senhor libertava-o de muitas coisas. Tirava-lhe o peso do amor aos homens, de suas largas costas, de sua vulgaridade histórica, permitia-lhe o corpo nu, amolecia o falo, dava a indiferença ao que do mundo vivo mais temia, o sexo. Fosse o das mulheres ou o dos homens. A castidade era a pedra fundamental, a semente maior que permitia-lhe paz e o dava casa na árvore do Senhor.
Foi por isso que sorriu. Sorriu levemente. Ela caminhou lenta, com as pernas em constrição, e ajoelhou-se no confessionário. De início, temeu pela leveza que se aproximava, nada condizente com o peso Crucis da confissão. Estava no mundo para que a humanidade entrasse pesada e saísse leve de seu confessionário. Foi então que ela disse com meias palavras de viaduto, Eu
faço o que o senhor quiser comigo. Eu o quero, Alois. Não como padre, mas como homem. E saiu sem esperar resposta, sem constranger as coxas que engrossavam a cada dia. Com o riso abençoado na face, sentiu-se homem seguro de todo o poder da dominação, estendeu a cabeça para fora e a viu sair da casa do Senhor. Sou Joseph Alois Ratzinger e serei Papa.
"Minha filha, por ele eu faço o que for. Ele é um Deus na cama, Santo Pecado", ouviu o sussurro na fila da sorveteria. As palavras flutuaram em seu pensamento como se fossem suas, como se o tal ele, existisse, como se soubesse o que cama era. A imagem mais santa e poderosa que surgiu foi justamente a do Padre Alois. Longe de ser belo, bom assim que não acionava as travas do desejo, Alois tinha uma postura quase imortal, um peso de livro duro e sólido sob as mãos. Por anos, sua palavra a confortava como o peito de um homem conforta a face de uma mulher.
A relação nunca antes existente entre o caminho espiritual, completamente iluminado por Alois, e a consciência visceral de seus hormônios se estabelecia de uma maneira deliciosa. Um pecado mudo escondido em polidas lambidas de sorvete. Já os lábios não se cerravam impunemente, havia neles desejo. As pernas, as coxas, se enconstavam como um delicioso castigo, como uma Ave-Maria uníssona e repetitiva, purificadora no ciclo vicioso dos pecados. Já começava a sentir, com a leveza espiritual das virgens, que poderia ter sua carne castigada se depois pudesse descansar sob o peito rígido como livro de um homem qualquer. Tantos pensamentos, e a culpa continuava adormecida como no pensar inocente.
Devagar notou que essa pequena tensão entre seu sexo e a figura patriarcal do padre era facilmente perceptível em outras, bastava que se sentisse o mesmo e que nenhuma ousasse desferir o véu da outra. Uma multidão de pecados silenciosos vivia sob o grande viaduto da salvação. Nas noites de sábado, destribuía sopas para que os famintos descansassem a fome no dia que Deus descansou do mundo. Poucas eram as vezes em que o estudioso Padre Alois participava desse nobre ritual de solidariedade. Era então quando ela estendia sobre ele toda a sua fragilidade, permitindo-lhe que se aquecesse estendendo-o a mão. Caminharam nas noites de sábado, a batina e a saia, o livro sagrado e o pecado inocente.
Alois sabia viver com esse tipo de tensão, perdoava esses pequenos desejos erguendo sua torre de livros. Dedicando-se ao estudo do sagrado doutrinava-se no caminho espiritual da salvação, a luz única do Senhor libertava-o de muitas coisas. Tirava-lhe o peso do amor aos homens, de suas largas costas, de sua vulgaridade histórica, permitia-lhe o corpo nu, amolecia o falo, dava a indiferença ao que do mundo vivo mais temia, o sexo. Fosse o das mulheres ou o dos homens. A castidade era a pedra fundamental, a semente maior que permitia-lhe paz e o dava casa na árvore do Senhor.
Foi por isso que sorriu. Sorriu levemente. Ela caminhou lenta, com as pernas em constrição, e ajoelhou-se no confessionário. De início, temeu pela leveza que se aproximava, nada condizente com o peso Crucis da confissão. Estava no mundo para que a humanidade entrasse pesada e saísse leve de seu confessionário. Foi então que ela disse com meias palavras de viaduto, Eu
faço o que o senhor quiser comigo. Eu o quero, Alois. Não como padre, mas como homem. E saiu sem esperar resposta, sem constranger as coxas que engrossavam a cada dia. Com o riso abençoado na face, sentiu-se homem seguro de todo o poder da dominação, estendeu a cabeça para fora e a viu sair da casa do Senhor. Sou Joseph Alois Ratzinger e serei Papa.