Ranzinza que só ele, não "me cança de surpreender-me" :
Por isso considero Desenvolvimento e Cultura. O Problema do Estetismo no Brasil, de Mário Vieira de Mello (São Paulo, Nacional, 1958), e Psicologia do Subdesenvolvimento, de José Osvaldo de Meira Penna (Apec, 1972), os estudos mais úteis que alguém já escreveu sobre a índole da cultura nacional. O primeiro discerne, nas fontes européias que mais nos influenciaram, o predomínio do prazer estético sobre a consciência moral. O segundo mostra que esse prazer nem chega a ser estético: é lúdico e erótico.
O brasileiro em geral, mesmo culto, não capta as exigências específicas do domínio moral, intelectual e religioso: decide as questões mais graves do destino humano pelo mesmo critério de atração e repulsa imediatos com que julga a qualidade da pinga ou avalia o perfil dos bumbuns na praia. Daí sua tendência incoercível de tomar a simpatia pessoal, a identidade de gostos ou a adequação às preferências da moda na classe artística como sinais infalíveis de alta qualificação moral.
O sr. Gabeira, por exemplo, sai por aí de tanguinha e diz que fuma maconha. Logo, só pode ser “bom sujeito”. Magalhães cai no samba e é amigo das mães-de-santo. Por mais que seja odiado politicamente, permanece um tipo popular, íntimo de todos. Inversa e complementarmente, homens da mais elevada estatura moral, como Gustavo Corção ou o príncipe D. Bertrand, foram odiados e desprezados, menos pelo conteúdo de suas crenças políticas (as mesmas de Nélson Rodrigues, do qual todo mundo gosta) do que pela rigidez hierática do seu estilo de viver, incompatível com aquele mínimo de esculacho promíscuo que é preciso para ser admitido no panteão dos “bons sujeitos”.
domingo, novembro 26, 2006
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