Associar o andar dentro do shopping com o dos museus é inevitável. O indivíduo vem, acompanhado ou não, e uma imagem fisga-o. Ele pára. Olha atentamente. Vê-se que depura o desenho, as cores, se é bonito ou não. Comenta ou não. E segue. O ar calmo é de quem flana. Um passeio pela interminável arte dos detalhes.
Diferente das inalcançáveis imagens em grandes exposições, esse desejo do olhar pode ser tocado pela carteira, suas cópias superam os dois dígitos e os crediários diluem o pesadelo das dívidas em partes comestíveis. É o consumo de massa, o olhar de massa, os objetos de massa em apetrechos tão úteis quanto um quadro de Picasso. Longe de ser uma macarronada homogênea, a diversidade não espanta, é demandada ao infinito. Não há nada que não possa ser comprado no Natal.
Um novo abridor de garrafas em forma de nave espacial, um telescópio para ver as estrelas, uma pulseira com pedras que brilham - sejam preciosas ou não. O Natal é a democracia máxima do olhar e do ter. Ele esmaga os Reis feudais que encomendavam produtos. O Natal é como a democracia americana: vermelho. Se necessário, ele invade a sua casa e expõe-lhe ao ridículo: tua voz no processo é curta, fraca, teu voto é minoritário, compre mais, sorria mais e faça parte.
O Natal é a tsunami das sacolas, é a produção humana em detalhes infinitos, o Golem da cristandade. Por isso, e para a inveja dos Reis feudáveis que cagavam em latrinas, os Correios recebem cartinhas da miséria pedindo para surfar na onda da necessidade inalienável dos seres humanos: ganhar presentes de Natal. O pedido deve causar comoção, um colchão ou a primeira boneca da criança, e assim oferece a qualquer um a possibilidade de ser Rei Mago. Louvemos, a miséria material é miséria espiritual.
Essa é a Magia do Natal. O marchand que há em cada um de nós, o senso estético ao máximo, o flanar desesperado para dar e receber coisas embalsamadas em papel para ser rasgado. É a democracia do Natal. Todo mundo compra, todo mundo vende, todo mundo sonha mais que realiza. Mentimos para as crianças: os presentes vêm do céu, trazidos em uma sacola insustentavelmente leve por um homem insustentavelmente sorridente.
Engraçado ou não, mas a mentira é simbólo maior do natal. Esse mentira deliciosa nos diz que a arte de amar e ser amado é a arte de escolher presentes fabricados. O homem de roupa alugada a quem entregamos nossos filhos para a pose eterna do mundo inocente. O mundo inocente da interminável arte dos detalhes.
domingo, dezembro 24, 2006
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