Desarmamento? Sim ou não? Lembra dele?
"Era a primeira vez que andava armado depois de ter conseguido o porte de arma. Nem se lembrava direito se houve alguma ilegalidade na concessão. Achava-se honesto, e logo, seu porte também. Nunca havia pensado em votar armado. Assim, talvez até seja proibido. Mas derrepente, tanta gente falando em armas, no sim, no não, que aquele velho revólver, guardado no fundo do armário, começou a ter voz própria.
Por quê? Sem saber se era mesmo a violência que estava em discussão, sem nenhuma sobriedade sobre o tema, mal teve tempo de se informar o suficiente. E lá estava, armado, indo votar no clube velho e decadente onde cresceu vendo a amizade e a violência lado a lado no cotidiano humano. Se aquele objeto era tão inútil, se não pretendia usa-lo, qual o problema com ele? Sem seu dedo, ele nada seria. E não é que estava, lá, pensando, com o dedo no gatilho sentido a temperatura do metal e sua lisa superfície, por dentro do paletó? Cansado, certamente estava cansado da rotina massacrante, de alguns excessos, de algumas saudades, sozinho atravessava a mesma rua que já atravessara um milhão de vezes, com todas as possíveis misturas do tempo. O território de nômades de final de semana, em caixas de papelão, cheirando cola, conversando e sorrindo.
São o crime? Podem me atacar, me esfaquear, precisarei me defender, deles? De quem? Sim ou não porra. Num vulto de tempo, cheio de adrenalina, só deu tempo de ver um preto, ler em seu movimento a vontade da agressão, e, atirou. Viu o relógio do pai na mão do maltrapilho sangrando, caído no chão, gritando. Sempre achou que usaria a arma para se defender de um policial, inevitavelmente ele também era negro, ou parceiro de um. O racismo era foda, se sentia tão racista numa sociedade onde todos dizem não haver esse tipo de preconceito. Não sabe bem, mas achava que ainda ia ter que se confrontar com um policial para escapar vivo, ou porque o policial era um filho da puta, ou por algum motivo que não entendia muito bem. Tinha a sensação que seria um policial que entraria na sua casa fazendo dele alvo. Mesmo sabendo que irreal, era assim que os pensamentos vinham antes que lançasse neles aquela louca filosofia humanista que tanto preservava. Talvez por ser ele mesmo negro, acreditava que seria suspeito de alguma coisa em algum momento.
Esse cara vai morrer. E eu não sei em quem votar. Tenho munição para matar mais 2. Legítima defesa, o filha da puta também tava armado, somos só mais dois pretos se matando, a vida é uma guerra e somos guerreiros. Papelada toda certa, testemunhas, o policial olhando com aquela cara de quem olha preto, relógio caro e roupa fina quase como elementos inexplicáveis do vestuário. Liberado terá que depor futuramente. Melhor subornar agora? Logo no único dia de democracia direta da história? Que caô, porra nenhuma. É mesmo um saco esse negócio de dizer sim ou não, respostas típicas dos inquéritos, dos revoltados e dos maria-vai-com-as-outras."
domingo, agosto 13, 2006
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário